Como usar IA na empresa · 6 out 2026 · 8 min de leitura

Treinar equipe com IA: o que a escola já descobriu

Três estudos controlados, em três países, testaram a mesma tecnologia com alunos. Em dois, o aprendizado disparou. No terceiro, a nota caiu. A diferença entre eles serve para qualquer empresa que precisa ensinar gente.

14 fontes verificadas · Para quem forma equipe

Em março, mais de 2 mil estudantes ocuparam o prédio da Bienal, no Parque do Ibirapuera, em São Paulo, para o torneio nacional de robótica do SESI. Na modalidade iniciante, crianças de 9 a 15 anos montam um robô com peças de encaixe, programam e têm partidas de dois minutos e meio para cumprir missões em cima de uma mesa.

O detalhe curioso está na regra. O placar do robô vale um quarto da nota que define o campeão. A regra oficial da competição, a FIRST LEGO League, diz que as equipes são avaliadas por igual em quatro áreas: os pontos na mesa, o projeto do robô explicado aos juízes, uma pesquisa com solução para um problema real e o modo como o time trabalha junto. Guarde esse um quarto, porque ele volta no fim.

Antes, vale olhar o que a ciência mediu quando pôs uma inteligência artificial para ensinar.

Seis semanas que valeram mais de um ano de aula

Em junho e julho de 2024, cerca de 800 alunos do primeiro ano do ensino médio público do estado de Edo, na Nigéria, frequentaram um reforço depois da aula, duas vezes por semana, com um assistente de IA de uso comum. Outro grupo, definido por sorteio, seguiu a rotina e serviu de comparação. O Banco Mundial mediu os dois.

13 horas foi o tempo médio de cada aluno com a ferramenta, somadas as seis semanas Banco Mundial, 2025
1,5 a 2 anos de aula, no ritmo habitual daquelas escolas, é a tradução do ganho no teste geral, que cobria inglês, noções de IA e habilidades digitais Banco Mundial, 2025
80% das intervenções educacionais avaliadas com rigor, na comparação do banco, ficaram abaixo desse resultado Banco Mundial, 2025

Agora a letra miúda, que não derruba o número e muda o jeito de ler. A régua é o ritmo daquelas escolas, que é lento: o próprio banco fala em crise de aprendizagem. O programa durou seis semanas, numa matéria (inglês), e os autores dizem que ainda não sabem se o ganho permanece.

E há o detalhe que mais importa. O professor estava na sala. Cada sessão começava com ele apresentando o assunto do currículo e sugerindo a pergunta para começar, e terminava com uma reflexão guiada. Os professores foram treinados antes. O banco os chama de maestros do piloto, e atribui o resultado ao modo de usar, não à tecnologia sozinha.

Em Harvard, o dobro em menos tempo

O cenário oposto deu no mesmo lugar. Em 2023, 194 alunos de uma disciplina de física em Harvard estudaram parte do conteúdo com um tutor de IA e parte numa aula de aprendizagem ativa, que já é considerada boa prática de ensino. O estudo saiu na revista Scientific Reports em junho de 2025: com o tutor, o ganho mediano foi mais que o dobro, numa mediana de 49 minutos de estudo.

O que os autores contam sobre a construção do tutor vale mais que o número. Ele foi feito para conduzir, um passo de cada vez. Dava retorno na hora, respeitava o ritmo do aluno e levava as soluções escritas pelos próprios professores, para não inventar. E eles registram o limite: era o primeiro contato dos alunos com o assunto, numa disciplina, e não presumem que o tutor vença a aula em todo contexto.

A mesma tecnologia, sem desenho, derrubou a nota

O terceiro estudo é o que impede a conclusão apressada. Pesquisadores da Universidade da Pensilvânia acompanharam quase mil alunos de matemática do ensino médio na Turquia, e publicaram o resultado na revista PNAS em julho de 2025. Havia dois assistentes, com o mesmo modelo por trás. Um imitava o chat comum. O outro tinha instruções dos professores e dava pistas em vez da resposta.

Nos exercícios, com a ferramenta na mão, os dois grupos foram muito melhor: 48% com o chat comum e 127% com o assistente desenhado. O susto veio na prova, sem a ferramenta. Quem tinha estudado com o chat comum foi 17% pior do que quem nunca teve acesso.

O que separou um resultado do outro

Quem usou o assistente desenhado não teve esse prejuízo: ficou no nível de quem estudou sozinho. Neste estudo ele não fez a nota da prova subir. O que ele fez foi evitar a queda. Os autores descrevem o que viram no grupo do chat comum com uma palavra: muleta.

A OCDE chegou à mesma leitura ao reunir a pesquisa disponível, no relatório de educação digital de janeiro de 2026. Com ferramenta de uso geral, o desempenho na tarefa sobe e o ganho some quando a prova é sem ela. O aprendizado melhora quando a ferramenta é configurada para ensinar, com base em prática de quem dá aula. Em resumo meu: terminar a tarefa e aprender são duas coisas diferentes.

No Brasil, o uso chegou antes da orientação

A escola brasileira já vive isso. A pesquisa TIC Educação 2024, do Cetic.br, mostrou que sete em cada dez alunos do ensino médio que usam internet recorrem à IA generativa nas pesquisas da escola. Só 32% dizem ter recebido orientação. A edição seguinte, divulgada em agosto de 2026, ouviu os gestores: em 37% das escolas o aluno pode usar IA nas tarefas, e só 22% têm um guia de orientação sobre o uso.

Há um número bom nessa história, e ele é do professor. Na pesquisa internacional da OCDE com professores, que ouve sobretudo quem dá aula do 6º ao 9º ano, 56% dos brasileiros dizem usar IA, contra 36% na média da OCDE. O uso mais comum é preparar aula.

E há um caso de casa. Em 2024, o Paraná recebeu o primeiro piloto em larga escala, fora dos Estados Unidos, do tutor de IA da Khan Academy. A organização descreve o tutor assim: ele guia o aluno a encontrar a resposta por conta própria. Em 2026, segundo a Secretaria de Educação do estado, mais de 170 professores e cerca de 12 mil alunos do Sudoeste testam a nova versão da plataforma, que traz o tutor, antes do lançamento mundial, previsto para 2027. É um teste, ainda sem resultado de aprendizagem publicado. O que interessa aqui é o desenho: um tutor feito para guiar, testado dentro da escola, com os professores no piloto.

O mesmo estado pôs a robótica no currículo. Segundo a secretaria, ela alcança mais de 200 mil estudantes da rede, e a programação, cerca de 500 mil. Em setembro, 128 alunos, quatro de cada um dos 32 núcleos regionais, disputaram em Curitiba o primeiro torneio estadual. No país, mais de 220 mil estudantes participaram da Olimpíada Brasileira de Robótica em 2025, somadas a prova teórica e as modalidades práticas. É uma geração treinada num método: tentar, errar, anotar, corrigir, em grupo. Ela chega ao mercado de trabalho nos próximos anos.

Na empresa, o retrato é o mesmo

Troque aluno por funcionário e o retrato é parecido. Na pesquisa de 2026 da consultoria BCG, com 11.749 pessoas de empresas grandes em 14 mercados, 82% dos funcionários de escritório brasileiros sem cargo de gestão dizem usar IA várias vezes por semana. É o quarto maior índice do levantamento, acima da média de 74%.

O treino não acompanhou. No conjunto dos 14 mercados, 88% acham que vão precisar de uma requalificação grande nos próximos cinco anos, e só 36% se sentem treinados de forma adequada, o mesmo número do ano anterior. Entre os funcionários sem cargo de gestão que usam IA com frequência, dois em cada três dizem receber pouca ou nenhuma orientação sobre o que fazer com o tempo que a ferramenta devolve.

A mesma pesquisa traz um dado que resume os três estudos em linguagem de empresa. Entre quem usa IA com frequência, onde a direção é clara e as ferramentas são poucas, 80% relatam resultado mensurável. Onde há muita ferramenta e pouca direção, 60%. Clareza valeu mais que licença.

E o tempo dedicado a ensinar é curto. A pesquisa da ABTD sobre treinamento no Brasil registra cerca de três dias de trabalho por colaborador por ano.

Quatro perguntas para desenhar o treino

Nada disso pede um projeto grande. Pede que alguém responda quatro perguntas antes de liberar a ferramenta para a equipe.

A ferramenta responde ou pergunta? O chat comum entrega o texto pronto. Um assistente instruído por quem ensina dá a pista em vez da resposta. No estudo da Turquia, foi essa a diferença entre perder 17% na prova e não perder nada.

Quem é o professor da sala? Nos estudos em que o aprendizado subiu, havia gente por trás: um professor abrindo e fechando cada sessão, na Nigéria, e professores escrevendo o roteiro do tutor, em Harvard. Na empresa, é o gestor ou o colega mais experiente, com tempo reservado para isso.

O que a pessoa faz sem a ferramenta? Foi a medida que, no estudo da Turquia, separou quem aprendeu de quem terminou a tarefa. Uma conferência curta, de tempos em tempos, em que a pessoa explica o próprio raciocínio, já mostra.

Para onde vai o tempo que sobra? Dois em cada três funcionários sem cargo de gestão que usam IA com frequência dizem receber pouca ou nenhuma orientação sobre isso.

Os produtos bem pensados já nascem assim. O kit escolar de IA que a LEGO Education anunciou em janeiro foi desenhado para grupos de quatro alunos, com o professor conduzindo, sem login do aluno e com os dados guardados só no aparelho. No Brasil, o cuidado com o dado de criança é lei desde março, com o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente, de que tratei em outro texto.

O robô vale um quarto

Volto ao torneio. Quem escreveu aquela regra sabia o que estava fazendo. Se o placar valesse tudo, as equipes aprenderiam a fazer ponto. Como ele vale um quarto, elas aprendem a projetar, a pesquisar um problema de verdade, a explicar o que fizeram e a trabalhar juntas. O robô é a parte que aparece na foto.

Na empresa, a ferramenta também vale um quarto. Os outros três são o desenho do treino, a pessoa que acompanha e o que a equipe consegue fazer quando a máquina está desligada. Dia 15 de outubro é o Dia do Professor. Nos estudos deste texto em que o aprendizado subiu, havia professor no desenho da aula.

Perguntas que costumam vir depois

A IA substitui o treinamento com gente?

Não foi isso que os estudos mediram. Nos três havia gente no desenho: o professor na sala, na Nigéria; os professores que escreveram o roteiro do tutor, em Harvard; as instruções dos professores, na Turquia. A ferramenta deixa a ajuda à mão na hora da dúvida. Quem decide o que se ensina, e em que ordem, continua sendo uma pessoa.

Qual é a diferença entre liberar um chat de IA para a equipe e ter um tutor?

O chat comum entrega a resposta. O tutor foi instruído pelos professores a dar pista em vez da resposta. No estudo da Turquia, com o mesmo modelo por trás, quem usou o chat comum foi 17% pior na prova sem a ferramenta, e quem usou o tutor não teve prejuízo.

Como saber se a equipe aprendeu ou só terminou a tarefa?

Olhando o que a pessoa faz sem a ferramenta. Foi assim que os pesquisadores separaram desempenho de aprendizado: a nota do exercício subiu nos dois grupos, e foi a prova sem IA que mostrou a diferença. Na empresa, vale uma conferência curta, de tempos em tempos, em que a pessoa explica o próprio raciocínio.

Isso serve para empresa pequena?

No estudo da Nigéria, o programa rodou em escola pública, com internet instável e 13 horas de uso por aluno, em média. A pesquisa com empresas citada aqui ouviu empresas grandes. O que se pode levar para qualquer porte é o desenho: alguém escolhe as tarefas, escreve como a casa quer que elas sejam feitas e acompanha.

E os dados da empresa durante o treino?

Treinar com exemplos reais da empresa é o caminho natural, e é por aí que o dado pode sair. O cuidado é o mesmo de qualquer uso de IA no trabalho: conta controlada pela empresa, regra clara do que pode entrar e alguém que confere.

Fontes

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Este texto foi publicado pela Botize, que constrói inteligência artificial integrada aos sistemas que a empresa já usa, para que a informação chegue organizada a quem precisa decidir. Se o assunto for útil para alguém do seu time, compartilhe à vontade.